terça-feira, 6 de setembro de 2016

Yasmin Nigri



















































CID 10 - S91.3

Em delírio fui copo

À espera do teu juízo

Fui esquecida

Largada no quarto

Durante sua festa

Virei cinzeiro

Estive imóvel e atenta

À espera do seu chute

Cortei seu pé

Fiz sangrar

Causei toda sorte de infortúnios

Da dor

Ao tétano

Nem cruzes ou credos puderam dar cabo

Até seu pé ser amputado


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Manuais

A gente sabe que está vencendo no capitalismo
Quando nos procuram pra falar só de trabalho

Você me diria ah,
mas qual a necessidade disso
tudo que fazemos vira poesia, tem eco

Ao passo que eu ué,
você fez uma panela enorme de lentilhas essa semana
qual a necessidade de toda essa lentilha?

Essa desistência é provisória
Tudo será superado
Domingos transgênicos tabagismo danças húngaras

Talvez seja mesmo de aceitar
Que a toda hora há alguém traduzindo
mal traduzido
Uma obra do Nietzsche


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O Sonho

Sonhei com Paul no metrô
Ele se detinha em minha orelha e disparava
De onde vêm todas essas pessoas solitárias?

Algo terrível acontece todos os dias: acordo

Minha mãe tenta me animar
Vamos olhar as modas?

Aqui tem uma linha, visualiza
Aqui você, eu do outro lado
O entorno é um museu
E essa é a funcionária pedindo
Encarecidamente não ultrapasse

Entenda, não porque sou rara ou valiosa
É que nessa fase da vida

Eu não tô podendo parar de fumar
Eu não tô podendo abrir mão da carne
Eu não tô podendo pegar ebola

Tudo que almejo é ostracismo
Você faria melhor uso do seu tempo
Polindo a prataria


xxx


Um poema para os Rolling Stones

Quatro anos de graduação
Dois anos de mestrado
Seis anos de alemão
E quando vejo essa porta vermelha
Ainda quero pintá-la de preto

Não tenho mais paciência para amar
Talvez devesse praticar o zen budismo em Copacabana
Custa vinte reais a sessão de zen budismo em Copacabana
Eu não poderia praticar o zen budismo em Copacabana sendo mesquinha
Deixa pra lá começa sete da manhã o zen budismo em Copacabana
Não é que eu seja mesquinha é que eu não tenho pra dar mesmo
Tudo é uma questão de logística

Ando refletindo sobre estreitar relações com minha espiritualidade e
Fora da faixa de pedestres um carro em alta velocidade quase me atropela
Tá maluca, quer morrer?
Talvez eu queira sim, seu idiota!

Às vezes perguntas tolas me vêm à cabeça
Como assim você é fã dos Beatles
E atravessa fora da faixa

Às vezes pensamentos malignos me vêm à cabeça
Sabe o que cairia bem agora
Você de um prédio


xxx


Mwauhauhau

Eu queria evitar a fadiga e não pensar em você
Respeitar seu desejo de não poetizar mais você
Porque aqui você sai efetivamente diferente de quem você intenciona ser
A minha vingança é que todos os poemas de amor que te escrevi são ruins
Inclusive esse
E minha vontade é reunir todos eles e publicar com o título
Minha vingança será nunca te escrever um poema bom


xxx


Isso não é um poema de amor

Nunca te escrevi um poema de amor
Nunca escrevi sobre meu temor por insetos
É mais fácil um carvalho transpirar
do que eu te escrever um poema de amor


xxx

Separar as tarefas do dia

Sair do acordo com o pântano

Enumerar lugares mais penalizados
Me convidar para um ménage
Recusar o convite por medo de decepcionar duas ou mais pessoas de uma vez

Traçar estratégias para quando a vida me derrubar tal como
Um dublê

Traçar espaços para os quais estou indisponível em ordem decrescente
___________
___________
                        ___________

Começar, apesar das desvantagens linguísticas
Fazer pegar o apelido comedor de batatinhas fritas novamente

Se é que tudo isso me compete
Se é que tudo isso não seja reabsorvido

Ser aquela que grita “o rei está nu!” enquanto todos elogiam seus trajes
Ser um embuste maior que o rei

Chegar numa conversa e dizer
Obtusa monocultura stripes and stars!
Com entonação solene

Ser uma dessas pequenas personagens que recebem mais atenção do que merecem
E vocês se lançarão em cima da isca

Pintar por passatempo ou terapia e ganhar milhões
Tirar desses milhões a grana pro dublê

Bolar um último recurso

Como Bart Huges o fez ao per-furar o terceiro olho com uma broca de dentista
Tornando-se o precursor da trepanação e um dos expoentes do happening

Elencar recortes de classe

No linguajar comercial P.A é calculado através da soma de peças vendidas dividido pela quantidade de atendimentos
No linguajar universitário P.A é um pau amigo


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Terra Prometida
 


De tudo aquilo que gostaria de dizer
Em sua língua materna
E não sei

Mando tímido
Happy Birthday 
Você responde
Mercy my beauty
E agarro forte uma saudade

Do banco improvável em Tiberias
A cabeça repousando sobre seu ombro
Em frente ao Mar da Galileia
Suas mãos me oferecem uma fruta estranha
Mistura de laranja com cramberry

Recolho algumas pedras
Você me diz

Essas pedras não são daqui
Foram colocadas aqui por pessoas

Its for beauty

As pedras daqui são cheias de furinhos
Magma escorreu e esfriou sobre elas
Famosas balcânicas

Preservo as pedras para beleza no bolso
Agora sinto suas mãos massageando minhas costas
Enquanto caminhamos por Jaffa ao som
Do mediterrâneo quebrando nas pedras
Como se fosse água declamando um poema

My love,
i miss you so much i wanna fucking kill you







Yasmin Nigri (1990) é carioca, crítica de arte, bacharel em filosofia pela UFF, onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. Trabalha com mediação educativa, artes visuais, oficinas de criação poética e performance. Escreve muito, lê mais ainda e é obcecada por documentários de arte. Além disso, é colaboradora da revista caliban e co-fundadora e integrante da disk musa. 



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